RESUMO - Introdução: Perante o envelhecimento da população, promover e proteger a saúde em idades avançadas torna-se prioritário. A malnutrição é comum entre a população idosa residente em lares e está descrita como fator de risco independente para doença, complicações associadas à doença e mortalidade. Além disso, tem sido associada à diminuição da função cognitiva e, consequentemente, à diminuição da capacidade de cuidar de si e a maior risco de dependência, comprometendo a qualidade de vida. A malnutrição é passível de prevenção e tratamento e as melhorias no estado nutricional podem beneficiar a função cognitiva. Torna-se, por isso, importante estudar esta associação, bem como fatores associados, na realidade Portuguesa, particularmente em lares de idosos, onde malnutrição e declínio da função cognitiva estão descritos como prevalentes.
Objetivos: Descrever a associação entre estado nutricional e função cognitiva em idosos residentes em lares.
Material e Métodos: Através de estudo epidemiológico observacional, transversal, analítico, no âmbito do projeto Portuguese Elderly Nutritional Status Surveillance System (PEN-3S), estudaram-se idosos residentes em lares registados no Instituto da Segurança Social, em Portugal continental e ilhas, elegidos por amostragem polietápica, com seleção aleatória de clusters amostrais. Nutricionistas e dietistas treinados realizaram entrevistas estruturadas face- -a-face assistidas por computador, recolhendo dados sociodemográficos, de auto-relato do estado de saúde, informação sobre lares, função cognitiva (Mini Mental State Examination) e estado nutricional (Mini Nutritional Assessment). Com modelos de regressão logística, corrigido o efeito do desenho, foi estudada a associação entre estado nutricional e função cognitiva.
Resultados: Foram avaliados 658 idosos. Desses, 52,3% apresentaram comprometimento da função cognitiva e 5,6% encontraram-se desnutridos, 38.8% sob risco de desnutrição e 55,6% com estado nutricional normal. Com modelos de regressão logística, foram identificados fatores associados ao risco de desnutrição ou desnutrição em idosos residentes em lares: comprometimento da função cognitiva (ORa 3,820; IC 2,093-6,969), idade (ORa 1,054; IC 1,011-1,099), localização do lar (Lisboa e Vale do Tejo ORa 8,936; IC 3,222-24,780; Alentejo ORa 6,187; IC 2,092-18,280; Madeira ORa 9,084; IC 2,618-31,550), stress psicológico ou doença aguda nos últimos três meses (ORa 7,273; IC 3,096-17,077) e auto-perceção do estado de saúde como “pior” quando comparado a pessoas da mesma idade (ORa 18,523; IC 7,319-46,879). Simultaneamente, estar sob risco de desnutrição ou desnutrido (ORa 3,263; IC 1,933-5,512), ter mais de 84 anos (ORa 2,521; IC 1,132-5,619) e a localização do lar (Lisboa e Vale do Tejo ORa 0,191; IC 0,070-0,520) revelaram-se fatores independentemente associados a apresentar comprometimento da função cognitiva.
Discussão de Resultados: Trata-se do primeiro estudo feito à escala nacional com registo de dados sobre estado nutricional e função cognitiva em idosos residentes em lares. As prevalências de comprometimento da função cognitiva são sobreponíveis a dados conhecidos no Líbano, sendo mais favoráveis que as encontradas para Itália ou Hong Kong. Relativamente ao estado nutricional, os resultados para Portugal revelaram-se mais favoráveis que os relatados para o Líbano, Bélgica, Japão, Suécia e Hong Kong. As diferenças metodológicas, nomeadamente no que se refere à amostragem, poderão justificar estas disparidades. Comprovou-se a existência de associação significativa entre o estado nutricional e a função cognitiva, após ajustamento por modelos multivariável e correção do efeito do desenho.
Conclusão: A malnutrição e o comprometimento da função cognitiva são problemas de saúde prevalentes que afetam os idosos residentes em lares, em Portugal continental e ilhas. Este conhecimento poderá fundamentar de forma mais adequada o desenvolvimento e a implementação de intervenções de saúde pública, especificamente dirigidas a idosos institucionalizados em lares Portugueses, que se assumem como prioritárias na promoção da sua qualidade de vida.